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Vida Imobiliária: A resiliência de um setor e a expectativa otimista para 2026

  • 09/01/2026

Nos últimos anos o setor vem crescendo a taxas próximas a dois dígitos, desafiando as projeções mais pessimistas e apesar de uma Selic a 15%


Poucos setores da economia nacional — o agro é um deles — têm sido tão resilientes quanto o mercado imobiliário, sobretudo no segmento residencial, mas não apenas.

Nos últimos 5 anos, a cada ano que passa, o setor vem crescendo a taxas próximas a dois dígitos, desafiando as projeções mais pessimistas, com resultados que surpreendem até mesmo os especialistas. Em qualquer grande cidade brasileira é notória a atividade do mercado imobiliário: plantões de venda, obras, tapumes, campanhas de lançamento (tudo bem, eu sei que às vezes irrita, mas é por uma boa causa!).


Novos produtos ganham tração no mercado, como o sênior living, e os compactos seguem desafiando as previsões de queda, seguindo com demanda forte, atendendo a um mercado de baixa permanência ou mesmo ao aluguel de longo prazo. O luxo alastra-se e sofistica-se pelo país, notoriamente não apenas nas grandes cidades, mas ao longo do litoral brasileiro, nos projetos de segunda moradia.


Do outro lado, o mercado de habitação de interesse social, o mais importante, representado pelo Minha Casa Minha Vida, já responde a 60% do mercado da cidade de São Paulo e pouco mais da metade do Brasil.


Dados da BRAIN sobre a intenção de compra das famílias brasileiras fecharam o ano com o maior patamar da série histórica trimestral. Quase 50% das famílias com rendas acima de R$ 3 mil mensais indicaram a intenção de comprar um imóvel nos próximos anos — 25% querendo assinar a compra de sua nova moradia ou de seu investimento já ao longo de 2026.


Em 2025, mais uma vez, o residencial brasileiro surpreendeu: embora os números fechados do ano, coligidos pela BRAIN para a CBIC nos 220 principais mercados imobiliários do país ainda não estejam finalizados, seguramente tivemos o melhor ano em lançamentos e vendas da história.


Resiliência apesar da Selic

A capital São Paulo, termômetro do país, havia lançado, até novembro de 2025, mais de 150 mil apartamentos nos 12 meses encerrados no referido mês, com mais de R$ 90 bilhões de valor geral de vendas (VGV). Surpreendente, de fato, pensando que terminamos o ano com uma Selic de 15%.


O fato deve ser comemorado, já que também explica em como a construção terminou o ano com mais de 3 milhões de empregos formais, no pico histórico.


Mas é bom lembrar que nem sempre foi assim. Há pouco tempo, digamos, em 2003, o crédito imobiliário concedido mal chegava a parcos R$ 4 bilhões. Hoje, somados apenas SBPE e FGTS, esse valor atinge o patamar de R$ 300 bilhões no ano. Isso sem contar o estoque de crédito diretamente concedido pelo mercado de capitais, com seus instrumentos, como CRI, LCI LIG e demais operações, cuja representatividade no estoque geral de crédito já é de 40% em média


Se o crédito exerce um papel decisivo no setor, é porque houve um esforço contínuo de aperfeiçoamento dos marcos legais e das políticas públicas — resultado do trabalho incansável das entidades do mercado imobiliário junto a diferentes governos, ao Ministério das Cidades, à Caixa Econômica Federal, ao Conselho Curador do FGTS, entre outros. Sem essa articulação, iniciativas como o Minha Casa Minha Vida — com seus constantes ajustes — e instrumentos como o patrimônio de afetação não teriam sustentado o desempenho que o setor apresenta hoje.


Trata-se de um caso raro: um setor altamente pulverizado, mas que, com coordenação eficiente, conseguiu construir marcos legais sólidos, que sustentam uma atividade que atravessa diferentes governos. É importante ser direto: o setor chegou até aqui não por acaso ou por sorte, mas graças a um intenso trabalho institucional e regulatório — impossível sem o apoio consistente das entidades setoriais e de seus dirigentes. Não cabe nomear ninguém, mas é justo reconhecer o esforço coletivo.


O dinamismo do setor não depende apenas da política nacional, mas também da micropolítica urbana — especialmente da aprovação de planos diretores sustentáveis. Em diversas cidades brasileiras, esses planos têm incentivado habitação de interesse social, usos mistos, fachadas ativas e integração com os modais de transporte. Não por acaso, onde prevaleceram planos mais restritivos, o mercado imobiliário encolheu.


Otimismo demais, talvez? Não exatamente: os desafios são grandes, como a implantação da reforma tributária — e temos obstáculos pelo caminho. Mas trata-se apenas da serena constatação de alguém que há mais de duas décadas acompanha com lupa o mercado imobiliário brasileiro e vem observando essa notável resiliência.


Se por um lado este ano teremos o ciclo eleitoral, que desperta paixões e gera um “ruído” no mercado, também teremos o início do ciclo de afrouxamento da Selic, com o mercado “precificando” a taxa de juros para atingir ao fim do ano um patamar de 12% a 12,5%. O emprego e a renda fortes, com juros em queda, e a manutenção dos orçamentos do FGTS, tudo isso vai favorecer o mercado. Para não falar do forte e quase inabalável desejo de compra.


E qualquer que seja o resultado do processo eleitoral, ao fim dele estará um empreendedor capaz, demandado crédito e querendo produzir, porque o que não falta nesse país é demanda para habitação, sobretudo nas classes menores de renda.


A coluna Vida Imobiliária trará sempre assuntos de interesse do setor em sentido amplo: não apenas a economia imobiliária, mas a Vida Imobiliária, porque na origem da casa própria que habitamos ou queremos habitar, ou do empreendedor imobiliário e de seus investimentos, há sempre um mercado bem vivido, de sonhos, esperanças, vidas e projetos para o futuro. Não apenas os números, mas as vidas imobiliárias de todos nós.


Fábio Tadeu Araújo é CEO da Brain Inteligência Estratégica, empresa que atua desde 2003 realizando estudos, pesquisas, consultorias e treinamentos voltados ao mercado imobiliário. É mestre e doutorando em gestão urbana pela PUC-PR.


Fonte:



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